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02/05/2014

O Rapaz conta como foi: PAUS, no Lux (Concerto de Apresentação - "Clarão")


Este artigo foi escrito no contexto da parceria com o Strobe, e como tal, podes vê-lo igualmente neste site (que é bem bonito!)

Foi uma simpática moldura humana que preencheu o piso inferior do Lux, para receber os PAUS e o seu recém-nascido “Clarão”. O quarteto lisboeta (que se deu a conhecer em 2010 com o EP “É Uma Água”), reservou a noite de quarta-feira para apresentar o seu novo trabalho, que vem assim prolongar a marca deixada pelo álbum homónimo: a peculiaridade sonora da banda, trazida pela sua também pouco ortodoxa formação, que posicionou o projecto como um dos mais interessantes que por cá têm aparecido.

A famigerada bateria siamesa dos PAUS, hepicentro de toda a energia característica da banda, era já o centro de toda a curiosidade mesmo antes da dupla Joaquim Albergaria e Hélio Morais se apresentarem em palco para fazerem vibrar cada peça pertencente ao curioso instrumento musical. Situação perfeitamente justificável, e quase sempre recorrente quando nos encontramos num concerto da banda, afinal é este um dos elementos que mais identifica e diferencia a sonoridade da banda.

O quarteto entra em palco, Albergaria e Hélio sentam-se frente a frente preparando-se para um concerto onde “energia” e “destreza” são palavras de ordem, enquanto Fábio Jevelim e Makoto Yagyu se encarregam dos teclados e instrumentos de cordas que aliam a melodia ao frénetico ritmo. “Primeira”, é (e nem o nome engana) a primeira canção que se escuta nesta noite e comprova desde logo essa perfeita simbiose que culmina num preenchido e corpulento som vindo do palco, muito por culpa dos teclados “espaciais” que agora circundam as incansáveis linhas rítmicas. Seguem-se “Cume” e “Clarão”, duas das canções mais entusiasmantes do disco novo da banda, que curiosamente não parecem ser recebidas com grande entusiasmo pela plateia. A timidez inicial ainda não se tinha perdido, e talvez percebendo isso, Hélio dirige as primeiras palavras a quem preenchia a sala: “Eu sei que lançámos o álbum há pouco tempo, e ainda não houve tempo para decorar as letras. Mas o ritmo é universal, ou não?”. Estava dado o mote para uma bonita festa, como seria inicialmente desejado.

“P’ra trás! P’ra trás!” gritava-se agora em palco, não querendo contrariar a tendência de um público que se mostrava agora mais disposto a receber com entusiasmo os estímulos sonoros, mas sim cantando “Pontimola”. “Ouve só” (tema que abre o álbum anterior, de 2011), antecede o single “Bandeira Branca”, agora sim recebido num clima de êxtase,  com ritmos contagiantes remetendo para um ambiente mais tribal.

A perfeita sintonia entre as duas metades da já referida bateria siamesa é verdadeiramente impressionante, e se já é entusiasmante escutar esse fenómeno, conseguir aliar a experiência visual transcende todas as expectativas. A capacidade quase minuciosa de coordenação, permite aos PAUS partir de períodos de calma à antagónica balbúrdia sonora, da ordem ao perfeito caos. A sonoridade camaleónica (dentro do estilo com o qual se comprometem), traz-nos desde a dançável “Cauda Turca”, à misteriosa “Negro” e à esquizofrenia de “Nó”.

Duas das mais aguardadas músicas da banda são tocadas de rajada, “Muito Mais Gente” e “Deixa-me Ser”, canções que ajudaram a construir o reconhecimento que hoje a banda Lisboa mantém dentro e fora do país, e cuja prova residiu no afinco com que o público se prontificou a desfrutar e entoar as letras em uníssono. “Estas são as últimas”, avisa Hélio Morais antes de atirar a “Corta Vazas” e “Pelo Pulso” (tema do primeiro EP do quarteto).

Mas tal como a letra de “Muito Mais Gente” declara, “O fim é um princípio qualquer”, e desta feita o fim anunciado por Hélio, rapidamente se transformou no princípio do habitual encore,  ameaçado por uma falha técnica de pronto solucionada com o bom humor que os PAUS sempre demonstram. O concerto não veria o seu fim, sem que antes Makoto se aventurasse num original crowdwalking. O público outrora pouco mais do que estático, termina a aplaudir o quarteto num clima de apoteose. Quando música contagia, não há inércia que resista. E assim se deu por terminada a noite em que o “Clarão” iluminou Lisboa pela primeira vez. Segue-se agora o Porto. 






14/02/2014

O Rapaz fala de: Homem Bala




Se já sou um confesso admirador das mais variadas proezas e habilidades circenses, existe uma que por si só faz as delícias de quem é fã de adrenalina e de sentir aquele nervoso miudinho, devido ao risco que correm os corajosos indíviduos que a estas actividades se submetem. Falo-te do fantástico, e por cá raro, número do Homem Bala! “Então mas tu não falas só de música, porque é que agora te metes a dissertar sobre circo?”, perguntas tu. Tudo isto tem uma plausível e entusiasmante explicação: A música portuguesa tem agora uma banda (de fantástico talento, diga-se) que pega exactamente nesse conceito e faz dele a sua identidade musical. Qual o o seu nome? “Homem Bala”, pois claro. É sobre eles que te falo agora.

  Este Homem Bala, ou melhor, estes Homem Bala, lançaram o seu disco homónimo de estreia no passado dia 10 de Fevereiro (para escutar e adquirir, aqui)e têm no rock o grande impulsionador e a fulcral fonte de energia para um “disparo de canhão” (que é como quem diz carreira musical) que desejam (e promete ser) proveitoso e duradouro. Na cidade de Lisboa, a banda busca a sua fonte de inspiração para as 8 faixas que compõem o este disco com o qual se estreiam (a canção “Atalaia” é talvez a perfeita demonstração disso mesmo), inspiração essa que culmina numa sonoridade bastante característica e pautada pelos ritmos frenéticos e guitarras tão melódicas quanto agressivas, quando o momento assim o pede.

  O rock funciona como catalisador de um som que por si só se define como explosivo, e é por entre as diversas variantes deste estilo musical (pop rock, stoner rock e uma pitada de piscadelismo) que a musicalidade dos Homem Bala deambula e faz deambular quem escuta, fazendo deste disco de estreia um registo fantástico de uma banda tão jovem quanto promissora. É por entre a poderosa canção instrumental “Viagem”, o refrões “catchy” de “O Baile” e “Homem Velho”, os viciantes riffs presentes em “Menina”, “Ladrão” e “Homem Bala” (a canção que fecha o álbum), e a entusiasmante métrica de “Pernas para o Ar”, que os Homem Bala se apresentam. Cientes do conceito e da mensagem que querem transmitir, André Cumbre, Hugo Hugon, João Ribeiro e Vasco Rato, demonstram uma maturidade musical bastante acima da média para quem ainda agora se lançou, sem medos(ou não fossem eles os Homem Bala) numa carreira musical que se prevê recheada de sucessos.


  O Homem Bala foi lançado, e agora quem é que o agarra? É ouvir, e estar muito atento a estes rapazes! Deixo-te com um dos singles do disco, e uma das minhas músicas preferidas desta banda que tão bem emprega o nome de um stuntman bem português.



10/02/2014

O Rapaz fala de: "Pesar o Sol" (Capitão Fausto - Concerto de Apresentação no Lux)




Os lisboetas Capitão Fausto, são indubitavelmente um dos valores cada vez mais seguros desta nova vaga de talento musical com selo de qualidade lusitano. Passados mais de 2 anos do lançamento de “Gazela” (o álbum de estreia a transbordar hiperactividade e refrões que demoram a sair da mente) o quintento acaba de lançar “Pesar o Sol”, um disco embebido num ambiente psicadélico propício a longas viagens mentais, sem necessidade de recorrer a qualquer tipo de substâncias psicotrópicas! É precisamente sobre este último trabalho dos Capitão Fausto que agora te vou falar. Do álbum, e do concerto de apresentação que aconteceu no Lux, no passado dia 6. Sim, por isto vai ser um texto 2 em 1, este blog transpira inovação! Ou então foi só uma fiável maneira de avaliar o verdadeiro poder que este “Pesar o Sol” efectivamente tem. Há melhor forma de o “sentir” do que ouvi-lo na íntegra ao vivo? Também achei que não.

  Ao observar os títulos deste dois primeiros discos saídos da mente dos Capitão Fausto, há algo que para mim se torna por demais evidente:  estes rapazes são exímios no que à representação do conteúdo do trabalho no seu próprio nome diz respeito. “Gazela”, demonstra na perfeição tudo aquilo que constítui as faixas presentes no álbum: a frenética velocidade (comparável à desse tal quadrúpede),  a contagiante energia presente nos riffs da musicalidade pop-rock apresentada pela banda, fundidas numa alegre festa rock de letras tão apetecíveis como bem pensadas. E agora “Pesar do Sol”, promete-nos desde logo a impossibilidade, a magia e o mistério de nos aventurarmos por um mundo incerto, dúbio e de certa forma abstracto, premissas tão próprias de um clima psicadélico que os Capitão Fausto exploram neste disco..e que bem que o fazem. Este facto pode parecer de certo modo insignificante, mas revela desde logo uma apurada sensibilidade da banda para envolver os seus trabalhos num conceito próprio, muito para além de uma simples apresentação de um conjunto de músicas. Foi uma belíssima mistura destes dois universos (“Pesar o Sol” e uma pitada de “Gazela”) que a simpática moldura humana que encheu o piso de baixo do Lux teve oportunidade de presenciar.

  Pouco passava das 23 horas quando se escutaram os primeiros acordes de um concerto do qual se esperava muito (e muito esperaram à entrada, os fãs da banda). “Litoral”, é o ponto de partida para a apresentação de “Pesar o Sol”  feita na íntegra, permitindo desta forma uma perfeita experiência quer visual quer sonora de tudo aquilo que os Capitão Fausto imaginaram para este trabalho. Instrumentos carregados de efeitos, unidos por acordes arrastados de sintetizador, oferecem ao vivo um resultado brilhante e bastante fiel ao que se pode escutar no disco. “Pesar o Sol”, assim como acontecia em “Gazela”, é feito de festa e animação (parece ser esta a afirmada identidade dos Capitão Fausto), mas desta feita resultante de uma panóplia de sons a descobrir e de musicalidade bastante mais preenchida, ao invés da explosão imediata que acontecia no seu antecessor. São perfeito exemplo disto “Nunca Faço Nem Metade” (espécie de hino da preguiça e procrastinação), “Prefiro que não Concordem”  e “Ideias”, canções que se aproximam de “Gazela”, mas com o tal cunho psicadélico e mais amadurecido que a banda incute no álbum (a adega na qual foi gravado “Pesar o Sol”, não podia ser cenário mais perfeito para personificar esse amadurecimento).As comparações com Tame Impala, são tão evidentes (a fantástica “Tui” é ideal amostra disso) como redutoras quando se resume apenas a isto, a descrição do brilhante processo criativo da banda. “Pesar o Sol” é muito mas muito mais que uma mera tentativa de cópia de assumidas referências musicais da banda (que passam por Pink Floyd e The Doors, é audível). É a evolução e engradecimento de uma banda que teima em revelar um enorme talento musical. Podiam por esse facto, ter enverdado por vários estilos...deu-lhes para o psicadelismo, só temos de agradecer (por mim falo, que tanto aprecio essa vertente da música rock).

  Foi por entre estas canções que a noite foi avançando, passando por solos prolongados (tocados frequentemente por Tomás Wallestein em pleno crowdsurfing, coisa que abundou durante o concerto). A chegada do single “A Célebre Batalha de Formariz” desperta o sing-a-long no Lux, mostrando a cada vez maior legião de fãs da banda, e desperta também uma “saudável batalha” feita de saltos e os habituais “empurrões” nas filas dianteiras, tudo absolutamente contido nos limites da diversão. A sequência “Flores do Mal” e “Pesar o Sol” (o instrumental que dá nome ao disco), permitem uma breve e calma viagem mental propícia ao “descanso” de toda a azáfama sonora que tinha sido uma constante até então. Descanso esse, bruscamente interrompido por “Febre”, a canção “Ska/Rock” que figurava em “Gazela” (que assim como “Verdade”, “Santa Ana” e “Sobremesa” marcaram presença nesta noite), pois num concerto dos Capitão Fausto raramente há lugar para tempos-mortos, isso já é sabido.

  “Maneiras Más”, segundo single do álbum é a música que fecha o concerto para o já habitual encore, fazendo-o com um largo períodio instrumental onde os teclados de Francisco Ferreira foram heróis, fazendo lembrar os largos e inesquecíveis solos de Ray Manzarek, projectando quem escutava para o espaço sideral.

  “Lameira”, canção que fecha o álbum, desempenha o mesmo papel neste concerto de apresentação. “Quando o país rebentar, eu vou cá estar para ver, o país rebentar” afirma o frontman (cada vez mais e melhor frontman, há que dizer), acompanhado por um riff quase 8-bit. A noite termina como começou: um som coeso carregado de efeitos, capazes que pôr em órbita qualquer ser que o escute.


  De entre todos os acontecimentos de “Pesar o Sol”, há um verso dito em “Tui” que marca, e podia perfeitamente figurar na capa do disco ou em outros elementos promocionais como sendo slogan/assinatura daquilo que o disco promete e indiscutivelmente cumpre: “P’ra viajar basta existir”. E que viagem é ouvir este “Pesar o Sol”!


20/12/2013

O Rapaz escolhe: 10 Fantásticos Álbuns de 2013 (Nacionais)



Chegamos assim à recta final do mês de Dezembro, época que nos traz assim conhecidas tradições que se vão repetindo de ano para ano.  Uma dessas tradições é sem sombra de dúvidas o Natal (não sei se já deste por ele), mas existe outra que normalmente surge por estes dias: A enxurrada de listas de melhores álbuns do ano. Pois bem, e para não fugir à regra deixo-te hoje a minha primeira de três listas (sem qualquer tipo de hierarquia, convém referir) ,não sei se de melhores álbuns, mas sim dos meus álbuns preferidos de 2013. Comecemos por aquilo que por cá se fez de melhor:  10 fantásticos discos nacionais que marcaram este ano civil que em breve termina.  Quem diz que a música nacional não está de boa saúde, anda a ouvir as coisas erradas. E tenho 10 razões para o provar.


"Casulo" - Márcia
Se há álbum que transparece, sem qualquer tipo de filtro ou obstáculo, o carinho com que foi elaborado, é sem dúvida este “Casulo”. Algo que contribui para que esse sentimento cresça em quem escuta,  é o facto deste trabalho que ter como base e pilar de construção, um dos fenómenos mais belos e encantadores da música: uma rapariga de voz  doce acompanhada pela sua guitarra. E se este parece um fenómeno frágil e pouco complexo, Márcia trata de lhe dar corpo e consistência com elaboradas letras, e igualmente belos arranjos musicais. É a merecida afirmação de uma das mais talentosas cantautoras nacionais.


“Grande Medo do Pequeno Mundo” – Samuel Úria

Uma viagem pelas raízes do folk americano e dos westerns, é talvez esta a melhor definição que encontro para aquilo que acontece ao longo deste disco de Samuel Úria. Mas não se trata de uma tentativa de imitação de um estilo musical definido, longe disso. Samuel Úria adapta, impõe o seu reconhecido cunho pessoal, e cria um conceito que serve de rampa de lançamento para um trabalho coeso, muitíssimo bem pensado e distribuído (no que às canções mais ritmadas e sentidas baladas diz respeito),  abrilhantado por fantásticas letras (ou não estivesse eu a falar-te de quem estou).


"Odyssea" - indignu
Confesso que pouco conhecia desta banda, até ter escutado este seu mais recente trabalho. Caraças, e em boa hora o fiz! Mais do que um conjunto de músicas, “Odyssea” é uma epopeia instrumental que faz jus à carga emocional que o nome do disco só por si promete oferecer. Se Luís Vaz de Camões optasse por pegar em instrumentos musicais ao invés de material de escrita, o resultado teria sido algo deste género! Poesia épica em formato de disco.

"Peixe:Avião" - Peixe:Avião
Três anos depois do aclamado “Madrugada”, 2013 foi data escolhida para o lançamento do terceiro disco dos Peixe:Avião, fazendo jubilar assim os muitos fãs que ansiavam já algo novo da banda de Braga. Instrospectivo, absorvente e rapidamente entranhável, assim se define de forma curta este álbum homónimo que o peculiar indie rock (ritmo vincado, riffs afiados e uma voz que ziguezagueia entre os diferentes instrumentos) dos Peixe:Avião cozinhou e produziu.


“Turbo Lento” – Linda Martini
“Apresentações para quê?” Os Linda Martini começam já a merecer que se inicie assim qualquer texto que se escreva sobre eles, tal é a pegada vincada que esta banda dona de um post-rock absolutamente afirmativo e descomplexado começa a deixar na música portuguesa. “Turbo Lento” vem acentuar isso mesmo. Um trabalho que não deixa de seguir na mesma linha dos anteriores (mantendo aquela personalidade sentimentalista de letras abstractas e intrumentos capazes da trasmitir a maior calma e antagónica destruição) mas mostra ao mesmo tempo uma vontade de arriscar e oferecer algo de novo a quem os segue. Objectivo cumprido!


“Homem – Elefante” – Riding Pânico

Continuando na onda post-rock (estilo no qual as bandas portuguesas parecem estar a tornar-se verdeiras especialistas), segue-se “Homem – Elefante” dos Riding Pânico, que este ano me fez cada vez mais adepto dos discos maioritariamente instrumentais. Acho fascinante o poder criativo de músicos que sem palavras conseguem transmitir uma mensagem, não caindo no erro da exaustiva repetição e consequente aborrecimento. E é exactamente isso que os Riding Pânico conseguem alcançar com este notável álbum de nome híbrido: entreter, fazer vibrar, saltar, dançar, gritar (tudo imaginário, não andei a fazer figura de maluco enquanto andava de headphones a ouvir isto) tudo tendo como arma um post-rock sem travões…e sem voz.


“Cabeça” – Filho da Mãe

Estes é daqueles álbuns que me surpreende constantemente do início ao fim. Só mesmo um brilhante guitarrista, como é o caso deste Filho da Mãe, conseguiria prender totalmente a atenção a cada nota, acorde e mudanças de ritmo alucinantes. O forte sentimento inerente em cada nota tocada, acolhe-nos e transporta-nos exactamente por onde as músicas querem que viajemos. Absolutamente brilhante.


“Leeches” – The Glockenwise

Como é que é aquela expressão? “O melhor perfume vem em pequenos frascos”? Pois bem, neste caso o “perfume” é um puro rock n’ roll pautado pela irreverência destes jovens de Barcelos, que neste “pequeno frasco” (que é como quem diz o disco, “Leeches”) se encontra. Pouco menos de 20 menos de vinte minutos de muito boa música, bem a jeito de ficarem em loop durante tardes inteira.


“As Viúvas Não Temem a Morte” – Ciclo Preparatório

Neste disco o pop-rock revivalista é a lei. Mas não um revivalismo daqueles que cheira a mofo, e se torna numa autêntica cópia do que foi outrora feito. Os Ciclo Preparatório não têm qualquer pudor em assumirem-se musicalmente influenciados por bandas pop-rock portuguesas dos anos 80, mas dão-lhe uma volta muito actual e entusiasmante. Uma espécie de “Heróis do Mar fundem-se com Vampire Weekend”, comparação (parva por sinal) que não querendo dizer necessariamente que o estilo segue essas duas bandas,serve para explicar essa transformação e processamento de influências mais antigas em algo que soa muito actual. Um trabalho bastante coeso e que revela uma elevada maturidade de uma banda que se encontra ainda no ciclo preparatório de uma carreira musical que se adivinha cheia de sucessos.


 “Mynah”- JUBA
Álbum de estreia da banda lisboeta JUBA, que se vai revelando como uma das mais entusiasmantes formações desta nova vaga de talentos da música portuguesa. O rock e o experimentalismo (insuflado de um tremenda vontade de tocar e mostrar o valor de quem começa a dar os primeiros passos) são as palavra de ordem neste disco. Uma nuvem sonora bem coesa, interligada por vezes com sintetizadores de traços psicadélicos, é talvez a característica mais forte deste "Mynah", e de uma forma geral da sonoridade que a banda começa a definir como própria. Como já tinha referido na análise que fiz ao concerto da banda no Vodafone Mexefest: “É deixar esta JUBA crescer, e estaremos perante um caso sério.”


E foram estas as minhas 10 escolhas! Uma lista eclética, repleta de qualidade, que me deixa com um orgulho enorme por ouvir e saber que no nosso país se fazem coisas deste calibre. E o melhor elogio que se pode fazer, é dizer que a escolha de 10 poderia facilmente passar para 20 que nada, em qualidade, se perdia. Que 2014 seja igual ou melhor, que a música nacional agradece!

21/11/2013

O Rapaz fala de: "Corsicana Lemonade" (White Denim)



  Foi no início de vida deste meu espaço na blogoesfera (já passaram 3 meses. Caraças, foi rápido isto!) que te falei de uns rapazes do Texas, dotados de um peculiar e extraordinário talento para a música, chamados White Denim. E nessa altura, no já longíquo e saudoso Verão (cuja brisa calorosa e agradável começa agora a ser substituída por uma que obriga a tirar os casacões do armário) falei-te no lançamento do mais recente álbum, que aconteceu a 30 de Outubro. Não te lembras? Podes reler aqui.

  Pois bem, cá estou para te dizer o que saiu da confecção deste “Corsicana Lemonade”, sucessor de “D”, o disco que tanto louvei na última vez que escrevi sobre este grupo norte-americano. Vamos a isso.

Neste “Corsicana Lemonade”, os White Denim aparentam querer apostar, e bem, na mesma receita que nos trouxe “D”: sólidos e bem executados instrumentais, que nos dão a sensação de ainda virem quentinhos de uma jam numa qualquer garagem (garage rock, é provavelmente daí que vem o nome). E é nesses moldes, que somos agradavelmente acompanhados ao longo de cerca de 38 minutos de ritmo acelerado e repletos de músicas de construção pouco ortodoxa, mas que rapidamente nos deixa convencidos e com vontade de ouvir e descobrir mais.

  “At Night in Dreams” é a música que nos dá as boas-vindas ao disco, e mostra desde logo a faceta de excelente executantes (guitarras, bateria, baixo, tudo se sincroniza e funde no som característico dos White Denim), que servem de suporte mais do que perfeito para James Petralli mostrar a sua voz, que não sendo daquelas que deixa boquiaberto quem escuta, se adequa e serve que nem uma luva a esta enxurrada sonora. “Corsicana Lemonade”,a canção que dá nome ao álbum, serve como exemplo perfeito (assim como a música seguinte “Limited by Stature”) para demonstrar todo o “groove” que corre nas veias destes jovens de Austin. Tempo para acalmar, e para a banda mostrar que nem só de guitarras no limite de velocidade se faz este “Corsicana Lemonade”. Vem aí “New Blues Feeling”, umas das músicas mais “slow” do disco, mas que mesmo assim os White Denim não deixaram de cair na tentação de incluir lá para o meio, um solo de guitarra bem ao estilo que gostam (vale a pena ouvir também aquele feito para “Distant Relative Salute”). E depois de um fugaz momento de calma naquele que é um disco de passo apressado, chega a altura de “Come Back” (talvez a minha preferida no meio desta dezena), cheia de poder e capacidade de não permitir que quem escute fique estático, e na qual James Petralli revela talvez o segredo para tanta genica e alegria da banda: “It’s always spring in my neighborhood”. Pois, vivesse eu num sítio onde se respira constantemente um ambiente primaveril, e seria também capaz (ignorando o meu microscópico talento musical..pormenores) de fazer música assim! É este ambiente que de facto “Corsicana Lemonade” cria: a alegria, o júbilo, as boas vibrações (ai que isto soou tão reggae). E provando isto que acabo de dizer, chega “Let if Feel Good (My Eagles)”, cujo refrão é nada mais nada menos do que um berro de felicidade capaz de levar um sorriso à cara de qualquer um.

  Entramos no trio que finaliza o álbum com “Pretty Green”, a música escolhida pelos White Denim para servir de single, e caso andes a ouvir as rádios certas (sim, há rádios certas e que valem a pena ouvir) provavelmente já tropeçaste nela. Voltamos ao clima primaveril e alegre com “Cheer Up / Blues Ending”, cujo término é a mais pura definição de garage rock, aquela forma não trabalhada do rock em que parece que alguém se esqueceu de parar de gravar (E que bem que sabe!). “A Place to Start”, balada digna de dançar com a cara metade daqueles bailes com bola de espelhos , termina na perfeição este disco.

  Os White Denim, continuam assim a encher-me as medidas com a música que produzem, apesar de ter de admitir que este último trabalho não me impressionou tanto com o seu antecessor, “D”. São de facto uma banda a ter em conta, e  não deixa de me espantar o facto de não serem mais reconhecidos. E como um dos meus maiores desejos é ver estes White Denim em concerto (pode ser que a maré dos festivais de verão os faça dar à costa portuguesa), deixo-te com uma versão “ao vivo” de “Come Back”.



06/11/2013

O Rapaz fala de: "Reflektor" (Arcade Fire)


Se há algo capaz de me deixar completamente desiludido em relação a um álbum, é o facto de não corresponder às expectativas criadas e à qualidade que inicialmente promete. Passo a exemplificar: quando é lançado um single que nos deixa “em pulgas” para poder ouvir um trabalho que prevemos ser igualmente entusisasmante, mas que no fim de contas nos deixa uma sensação nada agradável de quem acabou de ser enganado, é algo desolador e até mesmo revoltante. E tenho a certeza que contigo se passa exactamente o mesmo. E é por saber disso, que te trago boas notícias: “Reflektor” é mesmo tudo o que prometia.

Desde há uns tempos para cá, que os Arcade Fire têm revelado, a espaços, novidades sobre o disco recentemente lançado (letras das músicas; um brilhante vídeo interactivo; capa do disco; ordem das faixas; o facto de ser um duplo disco, etc.), o que gerou de certa forma (e em moldes longe da histeria, há que separar as coisas) uma “Febre Reflektor” que culminou em odes de elogios por parte da crítica que o colocavam no lugar de “ certamente um dos discos do ano”… mesmo antes de ele ter saído. Para isso contribuíram de igual forma algumas revelações curiosas, e que aguçaram o apetite musical de quem aguardava o disco, entre as quais: Uma participação do lendário David Bowie (no single “Reflektor”), e a produção do disco (duplo, neste caso) a cargo de James Murphy. Adivinhava-se algo não menos que notável. Missão cumprida.

O álbum dá-se a conhecer precisamente com o seu single “Reflektor”, cujos ritmos quase tribais (ouve-se ali um djembé ou é impressão minha?)são revestidos de sintetizadores e outros sinais de uma transformação electrónica da banda liderada por Win Butler e Régine Cassagne. Os Arcade Fire dizem assim adeus aos instrumentos acústicos e mais “clean” tão presentes nos trabalhos anteriores (“Funeral”, “Neon Bible” e por último “Suburbs”) e ingressam numa viagem de ritmos electrónicos e riffs viciantes. É sem dúvida a apresentação perfeita do que viríamos a encontrar neste disco dividido em dois. Logo de seguida, deparamo-nos com “We Exist” e “Flashbulb Eyes”, músicas que entram precisamente no campo dos ritmos bem conseguidos que se deixam envolver num agradável ambiente electrónico, e cuja curiosidade em “Flashbulb Eyes” é mesmo um teclado no refrão a fazer lembrar aquelas músicas caribenhas. Percebo agora quando se dizia que a banda tinha ido buscar variados estilos musicais. “Here Comes The Night” é então a música que se segue, e é claramente uma festa comprimida em 6 minutos e 31 segundos que nos obriga a bater o pé (para não passarmos vergonhas a dançar da forma que a música nos seduz a fazer), na qual aquele início frenético trouxe-me por momentos à mente a bateria siamesa dos portugueses PAUS. “Normal Person” dá assim início à sequência final do 1º disco, e uma das minhas preferida, que conta com “You Already Now” e “Joan of Arc” para nos fazerem ver que as influências mais rock não foram esquecidas neste disco.

Parágrafo no texto (pausa para respirar): Começa o 2º disco deste “Reflektor”. “Here Comes the Night II”, chega-nos como uma música subtil, quase em jeito de ressaca da festa sonora que foi a parte primeira da canção (lá no meio do 1º disco). E com isto seguimos aconhegados para “Awful Sound (Oh Eurydice)”, uma música em constante crescendo até ao seu final, e “It’s Never Over(Oh Orpheus)”, cuja agressividade controlada na guitarra e as quebras na linha de bateria lhe conferem um agradável e viciante ritmo. Chegando ao fim do 2º disco, que significa o fim do próprio álbum, resta-nos escutar “Porno” que se posiciona muito na linha das canções inicias do 1º disco, “Afterlife” que é um hino que incita ao movimento ao “Scream and Shout” (como diz o próprio refrão) como a banda sempre soube fazer, antes de fechar com “Supersymmetry” que na minha opinião, sendo a última faixa, resulta num certo “anti-clímax”, quando este álbum pedia muito mais.

E até o facto dos Arcade Fire quererem experimentar diferentes estilos num trabalho só, o que podia resultar menos bem em termos de coerência, acaba por fazer sentido ao longo dos dois discos. Balanço mais do que positivo para esta experiência “Reflektor”, na qual os canadianos demonstraram mais uma vez surpreender-nos ao arriscar, possibilitanto assim algo inovador e refrescante à indústria musical. É bom quando as expectativas são correspondidas.



06/10/2013

O Rapaz fala de: "Turbo Lento" (Linda Martini)


  Estreia de um álbum luso nesta pseudo-rubrica de análise de discos, e digo-te sem sombra de dúvidas que dificilmente se poderia pedir uma melhor estreia!

  Falarei então de “Turbo Lento” (oficialemnte lançado dia 30 de Setembro), o novíssimo e arrebatador àlbum dos Linda Martini, banda que tem vindo a satisfazer as necessidades mais rockeiras dos público português nesta última década, cimentando a passos largos a condição de banda de culto neste nosso Portugal. “Turbo Lento” esclarece todas as dúvidas (se ainda as houvesse): os Linda Martini deixaram de ser promessa, são agora uma vincada e crescente certeza.

  Formada em 2003, a banda lisboeta desde cedo despertou a atenção do público, muito devido à atitude descomprometida e apaixonante entrega às músicas de contrução pouco ortodoxa apresentadas pelo quarteto. Começando pela impressionante capacidade de criar letras disfarçadas de poesia abstracta demonstrada por André Henriques (vocalista e guitarrista), passando pelo invejável talento da baixista Cláudia Guerreiro, o incansável poder que Hélio Morais liberta nas suas linhas de baterias e o sentido melódico apurado de Pedro Geraldes (guitarrista), os Linda Martini caracterizam-se assim como uma banda que quer ser vista como um grupo coeso e não apenas como um conjunto de talentosas individualidades. E a forma como geralmente se apresentam em palco (em linha, sem protagonismos), é apenas um dos exemplos disso mesmo.

  E esta coesa formação lança agora o seu terceiro registo (no que a LP’s diz respeito), evoluindo e rompendo com os álbuns anteriores, mas não descontinuando o trabalho até então desenvolvido. Uma evolução trabalhada e pensada, renovados sem chegar ao ponto de querer deitar fora tudo aquilo que fizeram com “Olhos de Mongol” (2006) e “Casa Ocupada” (2010), mas  ao mesmo tempo não querendo cair na repetição e na opção de oferecer “mais do mesmo” a quem tantas esperanças depositava na banda. Os Linda Martini exploraram os vários lados bons (e são mesmo muitos) da sonoridade que têm como sua, e esmiuçaram cada um para o tornar mais apurado e desenvolvido. E assim se apresentam neste “Turbo Lento”, cada vez mais certos daquilo que são e querem vir a ser.

  “Turbo Lento” é então um disco que mescla tudo aquilo que de melhor Linda Martini tem para nos dar, doseando agressividade e harmonia e demonstrando uma propositada dualidade tão inerente ao espírito da banda (o próprio nome ambíguo do disco é em si uma contradição). Um arrepiante instrumental (como já é tradição), “Ninguém Tropeça nos Dias”, recebe-nos em “Turbo Lento” e lança-nos rapidamente para a descarga energética de “Juaréz”, que a par de “Tamborina Fera” e “Aparato” demonstra o expoente máximo das influências hardcore de Linda Martini e catalogam-se como as canções mais “a abrir” de todo o disco. “Panteão”, “Tremor Essencial”, “Pirâmica” e “Sapatos Bravos” demonstram então a faceta talvez mais habitual dos Linda Martini(os riffs acutilantes, as frases curtas, a poesia muda), enquanto “Ratos” e “Volta” (os dois singles do disco) demonstram composições não tão frequentes da bandas (refrão, é algo pouco usual nos discos transactos). O disco chega então ao final com “Volta”, na qual os últimos segundos são exactamente iguais aos primeiros que encontramos na faixa que abre “Turbo Lento”, revelando então a sua perfeita simetria.


  “Turbo Lento” faz-se de sentimentos, e se estes são difíceis de descrever, os Linda Martini sabem exactamente como tocá-los de forma a fazer-nos senti-los. Finalizando, vou  aproveitar os afamados versos de Chico Buarque(que a banda reutiliza em “Febril (Tanto Mar)”) para descrever o meu sentimento em relação ao disco: “Foi bonita a festa pá, /Fiquei contente”.


18/09/2013

O Rapaz fala de: "MGMT" (MGMT)


  Quando Benjamin Goldwasser e Andrew VanWyngarden fizeram nascer os MGMT, em 2004, dificilmente poderiam prever a velocidade com que iriam deixar uma marca tão bem vincada e duradoura na história da música recente. Estes dois jovens rapazes (aos quais se juntaram posteriormente mais elementos) teriam de ser tremendamente ambiciosos, ou bastante confiantes das suas capacidades enquanto músicos, para conseguir imaginar que num curto espaço de dois anos,(altura em que o disco de estreia, “Oracular Spectacular”, foi editado) temas como “Kids” e “Time to Pretend” andassem nas bocas do mundo e se tornassem automaticamente hinos de uma geração.

  Mas ao contrário do que seria provavelmente esperado, os norte-americanos MGMT, não se deixaram “adormecer” à sombra do enorme sucesso transacto, e também não procuraram replicar os “hits” que os elevaram a banda-sensação, como se “Kids” ou “Time to Pretend” fossem obra de uma qualquer fórmula mágica, muito pelo contrário. E como prova dessa mesma proatividade e vontade de mostrar que a banda não se caracterizava apenas por 2 ou 3 sucessos estrondosos, os MGMT lançam “Congratulations” (2009), que revelou um grupo sem complexos de querer soar ao primeiro disco e sem receio de apostar em algo completamente diferente dessa outrora tão bem sucedida sonoridade. O segundo álbum funcionou assim como uma espécie de etapa intermédia na metamorfose dos MGMT, dando indícios de uma cada vez mais evidente incursão pelo universo psicadélico. A evolução estava à vista, e o resultado final está agora em “MGMT” (lançado dia 16 deste mês de Setembro ).

  E se pode parecer estranho o facto de uma banda lançar um álbum homónimo ao terceiro registo, a verdade é que neste caso não poderia fazer mais sentido. É assim que os MGMT se assumem como músicos, e com o estilo musical que desde os tempos de “Congratulations” andavam a ameaçar adoptar. O psicadelismo e o som estranho e experimental que tanto parece entusiasmar a banda de “Electric Feel”, fundem-se neste álbum de uma forma tão envolvente que nos dá a certeza que de facto os MGMT conseguiram definir e consolidar a sua sonoridade.

Um turbilhão de sintetizadores e outros intrumentos pautados pela distorção, que culminam numa nuvem psicadélica pronta levar a nossa mente para bem longe. É assim que de uma forma sucinta mas altamente eficaz se pode classificar aquilo que nos traz “MGMT”, que não só nos oferece uma excelente experiência sonora, como também se transforma numa hipnotizante e altamente sensorial experiência visual (usando algo a que a banda chama "Optimizer", uma espécie de bónus para quem adquire o disco). E é precisamente desde o crescendo inicial da música que abre as hostilidades deste disco, o single “Alien Days”, que rapidamente conseguimos aperceber-nos que estamos a entrar no universo paralelo de “MGMT”. É ao passar pelas batidas bem conseguidas de “Cool Song No 2” e “Mistery Disease” , que o ambiente psicadélico se começa a adensar e a tornar-se mais cativante, de tal modo que a banda se atreve em “Your Life is a Lie” a pôr em causa a vida real que o ouvinte deixou momentaneamente esquecida ("Here's the deal/ Open your eyes/ Your life is a lie", assim nos dizem). A partir da 5ª faixa, que assinala a metade que divide o álbum, os sons começam a tornar-se substancialmente mais minimalistas (como em “A Good Sadness”, “Astro-Mancy” e principalmente em “I Love You, Death”), e onde a banda revela uma capacidade impressionante de prender a nossa atenção com o mais ínfimo som. Este ambiente envolvente, prossegue então numa “catchy” e animada “Pleanty of Girls in the Sea”, que funciona como uma espécie abraço psicadélico ao indie rock outrora produzido pelos MGMT, e culmina numa aconchegante e prolongada despedida denominada “An Orphan Of Fortune”.
  “MGMT”, é assim um álbum que vale muito pelo seu todo (não menosprezando o poder individual de algumas canções), muito graças ao universo sonoro e coeso que consegue criar na mente de quem o escuta.

  E se os Tame Impala são os príncipes do psicadelismo, este disco poderá ter revelado um novo lugar ocupado nessa honrosa dinastia. Nós agradecemos.




12/09/2013

O Rapaz fala de: "Right Thoughts, Right Words, Right Action" (Franz Ferdinand)




  “I say, "Don't you know?" / You say, "You don't know" / I say, "Take me out"”, foi basicamente assim que os Franz Ferdinand se apresentaram ao mundo. Electrizantes, viciantes, dançáveis, assim se começou a construir um fenómeno que catapultou os rapazes de Glasgow para o estatuto de uma das bandas mais entusiasmantes do início do milénio. Durante esta dezena de anos de vida que leva já a banda de Alex Kapranos (sempre gostei do apelido dele), esta oscilou entre as luzes da ribalta e largos momentos de esquecimento (facto que se deve ao espaço, talvez demasiado acentuado, entre lançamentos de material musical novo).

   E foi exactamente num período fora do protagonismo (protagonismo esse, proporcionado principalmente por “Franz Ferdinand”, de 2004, e não tanto por “You Could Have It So Much Better” e “Tonight:Franz Ferdinand”, estes de 2005 e 2009 respectivamente) que a banda de “No you Girls” viveu nos últimos anos. Ao longo de aproximadamente 4 anos, nada de novo se soube dos outrora activos e frenéticos Franz Ferdinand (ainda assim, Portugal contou com a sua sempre agradável visita em 2012) e a espera teimava em prosseguir. Mas eis senão quando sai,pela mão da Domino Records a 26 de Agosto do corrente ano, “Right Thoughts, Right Words, Right Action”. Demoraram? Sim, mas estão inequivocamente perdoados.

  “Right Thougts, Right Words, Right Action”, é um álbum que traz à tona aquilo que de melhor os Franz Ferdinand poderiam ter para nos oferecer. Uma mão cheia de músicas que rivalizam indubitavelmente com aquilo que de mais icónico a banda já produziu, e que nos dizem que o quarteto escocês está de volta e melhor que nunca. Uma festa pautada pelo característico “dance rock” de Franz Ferdinand, são assim estes 35 minutos de música boa (precisa, e sem rodeios), cujo início fica precisamente a cargo da canção que tem como refrão o nome do disco, “Right Action”. E assim se inicia uma frenética viagem auditiva, graças a imparáveis músicas como “Evil Eye” (esta podia ser perfeitamente uma prima afatada do inesquecível tema de abertura de “Ghostbusters”, juro-te que podia), “Love Illumination”, “Treason! Animals” e “Bullet”, e onde apenas é dada permissão para respirar momentaneamente em “Stand on the Horizon”, “Fresh Strawberries” (uma das minhas preferidas) e “The Universe Expanded”.

  Como perfeita despedida para um perfeito trabalho, Kapranos (nunca é demais frisar o quão "cool" é este sobrenome) diz então“Goodbye Lovers & Friends”, e deixa quem escutou a implorar para que não demorem a brindar-nos com algo novo, e se possível igualmente bom.

  E o que se faz quando 35 minutos, que passam num ápice (como tudo quando é bom), nos deixam com uma sensação tão agradável? Volta-se ao início, ora pois.