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23/07/2014

O Rapaz conta como foi: Super Bock Super Rock 2014 (19 de Julho)


Este artigo foi escrito no contexto da parceria com o Strobe, e como tal,podes vê-lo igualmente neste site (que é bem bonito!)

Depois de um dia onde a chuva ameaçou arruinar parte do 20º aniversário do Super Bock Super Rock, o derradeiro dia do festival chegava com a esperança de fazer esquecer o inesperado caos que em forma de dilúvio invadiu o recinto na note transacta. Com The Kills, Foals e Kasabian como “prato principal”, a festa na Herdade do Cabeço da Flauta tinha todos os componentes necessários para terminar em beleza.

O início de noite foi acompanhado pelo concerto de Tributo a Lou Reed, protagonizado por Zé Pedro e outros ilustres convidados (The Legendary Tigerman, Lena D’Água, Jorge Palma e Tomás Wallenstein foram nomes que deram o seu contributo). O concerto deu-se num ambiente descontraído, onde todos os principais êxitos do mítico líder dos Velvet Underground foram incluídos. “Perfect Day”, interpretado por Jorge Palma, foi possivelmente o momento alto do espectáculo-tributo, servindo como uma espécie de mote para o que se desejava ser exactamente isso: um dia perfeito.

Albert Hammond Jr, era o senhor que se seguia no palco principal do recinto do Meco, ele que deve o seu reconhecimento essencialmente ao facto de exercer a função de guitarrista dos norte-americanos The Strokes.  A carreira a solo de Albert Hammond Jr começou a ser trilhada em 2006, quando lançou o disco de estreia “Yours to Keep” e mais tarde “¿Cómo Te Llama?”, dois discos que obviamente foram revisitados no concerto do Super Bock Super Rock. A sonoridade é claramente indissociável daquilo que podemos ouvir nas canções The Strokes, sendo por isso esta incursão a solo uma continuidade do seu trabalho com a banda. Em palco, Albert apresenta-se dinâmico e irrequieto, contrastando com as poucas dezenas de pessoas que assistiam apáticas ao concerto. “So quiet!” exclama entre sorrisos o músico norte-americano, que acaba por ver o seu concerto afectado pelo habitual problema de todas as banda que tocam em inícios de dia de festivais: o generalizado desinteresse do público.

No lado oposto do recinto, mais precisamente no palco EDP, o punk-rock de sangue na guelra dos jovens SKATERS já se fazia ouvir. O quinteto nova-iorquino, que trazia o disco de estreia “Manhattan” (lançado no decorrer deste ano) ao festival do Meco, ofereceu um espectáculo carregado de energia e ritmo elevado à plateia que foi aumentando o seu entusiasmo com as mais conhecidas canções, como “I Wanna Dance (But I Don’t Know How)”, “Deadbolt” e "Miss Teen Massachusetts”, deixadas para uma parte final que aqueceu o ambiente nas imediações do palco secundário.

Enquanto isso, em frente ao palco principal, uma composta moldura humana esperava a entrada dos The Kills. A dupla formada por Jamie Hince e Alison Mosshart apresentou-se pela última vez em Portugal em 2012 num concerto memorável, pelo que as expectativas para o que aí vinha estavam obviamente num nível elevado. “U R A Fever” abre o espectáculo, demonstrando deste logo que a forte ligação entre a dupla se transforma em palco numa harmoniosa e bem sucedida coordenação entre as duas metades da banda. Jamie perfigura-se como o núcleo musical do projecto, como se de um “maestro” alucinado (em forma de guitarrista) pronto a contrabalançar os devaneios instintivos e selvagens da carismática Alison Mosshart. Munidos do seu puro rock “enlatado”, solto pelos pad’s de Jamie Hince a cada canção que começa, e enfatizado pelos percussionistas e pelo coro (presente para participar em “Satellite”) que preenchem o palco, os The Kills trouxeram ao Meco um alinhamento composto por temas de “Midnight Boom”, “Keep Your Mean Side”, “No Wow” e o mais recente “DNA” , num concerto curto onde a comunicação da banda com o público foi practicamente inexistente, mas peremptoriamente compensada com a entrega da banda à interpretação das músicas que desfilaram naquele início de noite. “Last Goodbye” ( pedida em vários cartazes espalhados pelas filas dianteiras) acabou por não aparecer, o que justificou uma pequena desilusão sentida pelos fãs da banda. Mais um bom concerto, a somar a outros que a banda já deu em terras lusas, mas que certamente não ficará na memória como tendo sido um dos melhores dos The Kills em Portugal.

Foals, eram os senhores que se seguiam no palco principal, e traziam pela segunda vez a Portugal (após uma passagem pelo Coliseu de Lisboa no final do ano passado) o aclamado “Holy Fire”, assim como êxitos de outros discos que os tornaram numa das bandas coqueluches do panorama rock alternativo internacional. O espectáculo começa, e “My Number” causa a primeira explosão na plateia. O rock coeso de acordes portentosos e encorpados dos Foals, traz consigo um enorme poder na actuação ao vivo e deixa a plateia absolutamente rendida e em êxtase ainda nos temas iniciais do concerto. Para tal contribiu a disponibilidade para o espectáculo demonstrada por Yannis Philippakis (o irrequieto frontman do conjunto britânico), que incita os saltos e a euforia na plateia, e até se aventura num solo em pleno crowdsurfing. A “loucura” é brilhantemente esfriada por temas mais calmos como “Milk & Black Spiders”, e provocada de novo quando os ritmos galopantes e riffs dilacerantes de temas como  “Inhaler” chegam. “Portugal, you were badass!”, exclama o vocalista antes de se lançar a “Two Steps, Twice” recebida em perfeita comunhão com a plateia para terminar em perfeição um concerto que por si só o foi. Os Foals acabavam de dar um dos melhores concertos do festival.

E quem aproveitava o interregno entre concertos no palco secudário, para rumar ao palco EDP (e juntar-se assim à enorme plateia que ali se reunia), encontrava Oh Land sentada ao piano e a fazer ouvir a sua doce pop sonhadora. A melancolia e a energia pop, são os dois extremos que a bela Nanna Øland Fabricius gosta de tocar, cativando assim o público que prontamente participa em todas as solicitações da belíssima dinamarquesa. “Renaissance Girls” é um dos singles apresentados por Oh Land, e um dos expoentes máximos de um concerto que, como já é hábito nas suas passagens pelo nosso país, agradou e muito a quem a viu e ouviu.

De regresso ao palco principal, antecipava-se a entrada dos Kasabian, com a poeira que os Foals trataram de fazer levantar ainda a pairar no ar (e certamente sem tempo para assentar). “48:13”, é o título do mais recente disco dos britânicos, e a insígnia que tapa o fundo do palco. E é precisamente um dos singles do disco novo, “Bumblee”, que serve como mote para o iníco do concerto mais esperado da noite. A parafernália de luzes e sintetizadores, mostra a nova cara dos Kasabian, que desde “Velociraptor” decidiram abraçar uma versão ainda mais electrónica do seu indie rock. Os monumentais êxitos dos discos primordiais (“Shoot The Runner”, “Underdog”, “Club Foot”, entre outras) foram intercalando os temas presentes no novo álbum (como “eez-eh”, cuja base instrumental recorda Blur, mas que a letra cliché faz lembrar toneladas de bandas pop), num espectáculo de luz e som que Tom Meighan e Sergio Pizzorno trataram de animar e fazer com que nem por um segundo a multidão que os enfrentava perdesse o entusiasmo. Ainda com direito a encore (que trouxe “Switchblade Smiles”, “Vlad The Impaler” e a explosiva “Fire” ao Meco), a banda despede-se de uma plateia em êxtase que desta forma queima os últimos cartuchos no palco principal do festival. A relva que no primeiro dia de Super Bock Super Rock cobria as imediações do palco, reduz-se a nada no final do último dia de concertos. Para isso contribuíram concertos como este, dos Kasabian, em que a plateia se demonstra incansável do início ao fim.

Tempo para despedidas no festival que ocupa a Herdade do Cabeço da Flauta. 3 dias de música para todos os gostos, que nem o imprevisto em forma de dilúvio que marcou segundo dia conseguiu arruinar. A festa do 20º aniversário do Super Bock Super Rock chega ao fim, e o balanço é extremamente positivo. Para o ano há mais “Meco, Sol e Rock n’ Roll”.

12/07/2014

O Rapaz conta como foi: NOS Alive'14 (11 de Julho)

Este artigo foi escrito no contexto da parceria com o Strobe, e como tal, podes vê-lo igualmente neste site (que é bem bonito!)

Depois de um primeiro dia completamente esgotado, o NOS Alive voltou a abrir portas aos milhares visitantes que por estes dias se vão deliciando com a variedade e qualidade musical que desfila no recinto de Algés. Ontem, o cartaz era encabeçado pelos norte-americanos The Black Keys, mas nem por sombras se pode apenas resumir o dia a esse concertos. O dia de ontem trouxe-nos esperados regressos, estreias bem-sucedidas…..e uma despedida muito especial.

Fora de actividade desde 2009, os Vicious Five fizeram do palco NOS o local para uma despedida que na verdade, nunca chegou de facto a acontecer. 5 anos depois, vemos o quinteto punk rock voltar a entrar em palco, recebido por saudosos aplausos por parte de uma plateia repartida entre quem os viu no seu auge e quem “ainda estava a escolher o agrupamento da secundária nessa altura”, como definiu Joaquim Albergaria, quando o grupo constituído por Rui Mata, Paulo Segadães, Edgar Leito e o vocalista Joaquim Albergaria (que hoje estará de regresso ao Alive, desta feita sentado de um dos lados da bateria siamesa dos PAUS) fazia sucesso.  “Olá, nós fomos os Vicious Five. Bem-vindos ao nosso funeral”, proferiu Albergaria antes de atirar a um alinhamento constituído por temas dos 3 registos discográficos da banda, e onde não faltaram antigos sucessos como “Bad Mirror” ou “Coffee Helps”. Um “funeral” que não serviu para chorar o definitivo abandono da banda, mas sim para celebrar e festejar aquilo que foram em vida. Após uma actuação potente, enérgica e intensa, fica a certeza: Os Vicious Five parecem demasiado saudáveis para quem se considera cadáver.

E se no palco NOS termina a “festa fúnebre” dos Vicious Five, no palco Clubbing está prestes a começar o nascimento dos D’Alva ( Com a companhia dos Gospel Collective) que recentemente deram a conhecer o seu disco de estreia “#batequebate” impregnado da pop fresca que os define. “Frescobol”, single do disco, abre a incrível festa que pôs a plateia ao rubro, de sorriso nos lábios, mãos no ar e corpo solto, prontos a aceder aos pedidos do incansável frontman, Alex D’ Alva Teixeira. E não foram poucas  as vezes que Alex exigiu barulho, palmas, e que lhe seguissem os passos de dança, bem ao jeito de uma espécie de professor de aeróbica possuído, com ritmo e música a correr-lhe nas veias. Samba, Prince, Spice Girls e muito groove, são estes os ingredientes (tão diferentes entre si, é certo, mas que que se fundem tão bem neste sonoridade) que Ben Monteiro e Alex D’Alva Teixeira utilizam para construir o projecto que promete continuar a levar ao delírio as plateias nacionais. “Não tenham vergonha nem medo de gostar de Pop”, diz o vocalista. Para quem tem esse medo, fica o aviso: os D’Alva são uma séria ameaça.

Em simultâneo com a festa pop dos D’Alva, os Last Internationale protagonizavam uma actuação pautada pelo blues rock explosivo. A nova banda do baterista  Brad Wilk (membro de Rage Against The Machine e Audioslave), onde também milita o luso-americano Edgey Pires, presenteou o público do NOS Alive com um concerto sólido e dinâmico. No mesmo palco, seguiam-se os MGMT.

A dupla formada por Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden (que durante a tarde apanhei a vaguear pelo recinto), trazia no bolso os 3 discos para já editados e os hits de sempre metidos lá pelo meio. Acompanhados em palco por um punhado de guitarristas (3, para ser mais exacto) e um baterista, a banda de “Oracular Spectacular” ofereceu um concerto morno a uma plateia que pouca atenção prestou.  Os delírios psicadélicos dos norte-americanos, acompanhados visualmente por imagens igualmente alienadas nos ecrãs gigantes, pareceram não resultar ao vivo, e muito menos cativar a atenção do público que na sua maioria esperava a chegada de “Kids” para mostrar o seu entusiasmo. E foi precisamente nos temas mais conhecidos (bem posicionados no alinhamento) que a plateia se fez ouvir a plenos pulmões: “Time to Pretend” (no início), “Electric Feel” (sensivelmente a meio do concerto), “Kids” e “Congratulations” (a terminar um espetáculo que acompanhou o pôr-do-sol). Com Andrew pouco comunicativo, esporadicamente a agradecer à plateia e por uma vez a dedicar uma canção à lua, o concerto dos MGMT deixou a sensação de ter ficado aquém das expectativas.

Também eles norte-americanos, e com a semelhança de serem também uma dupla, era chegada a hora do concerto mais esperado da noite: The Black Keys, de volta a Portugal depois do concerto em Novembro de 2012 no ainda Pavilhão Atlântico. Com mais um disco no currículo (o recente “Turn Blue”) , a acrescentar aos 6 previamente editados, os rapazes de Akron esperavam corresponder à elevada expectativa do público, que os recebe em clima de euforia. “Dead and Gone”, abre caminho para uma noite de blues-rock trazido pelas guitarras de Dan Auerbach e a bateria de Patrick Carney, tendo como base os temas de “Brothers” e “El Camino” (para satisfação geral), os dois discos que os catapultaram para a posição de reconhecimento que agora se pode comprovar. O público vibra, aplaude e acompanha em êxtase cada canção tocada, exepção feita aos temas saídos do sensaborão “Turn Blue”. As músicas do novo disco, parecem não entusiasmar por aí além os fãs da banda, e a razão é simples: “Turn Blue” é um disco com demasiados temas que depressa caem no esquecimento (exepção feita ao single “Fever” e talvez “Bullet In The Brain”), talvez por demonstrarem uma faceta rock mais “clean” que noutros álbuns não se sentira (e quando a comparação é feita com primeiros discos, então a diferença é absolutamente gritante). Felizmente, a decisão da banda passou por incluir apenas 3 temas do disco novo, o que ajudou a garantir desde logo o sucesso do concerto. “Lonely Boy” fecha em beleza a primeira parte do alinhamento, que tinha já contado com “Tighten Up”, “Gold on the Ceiling” e “Howlin For You”. O encore, que parecia já não acontecer (terão os habituais cânticos de “Seven Nation Army” contribuído para a demora? O ambiente entre Dan Auerbach e Jack White, não é o melhor…), acaba por chegar.  A fantástica “Little Black Submarines” é a escolhida para ressuscitar o concerto, e de repente, os arrepios não são mais consequência do vento frio que se fazia sentir. “I Got Mine”, termina o espectáculo de forma perfeita e deixa rendidos os milhares de pessoas que marcaram presença no palco NOS.  Pouco depois, no mesmo palco, espaço para a já habitual festa trazida pelos Buraka Som Sistema.

No outro extremo do recinto, as Au Revoir Simone tomavam conta do palco Heineken com a sua doce dream pop e o disco novo “Move in Spectrum”.  Annie Hart, Erika Spring Forster e Heather D'Angelo compõem o trio nova-iorquino que faz das batidas electrónicas e dos sintetizadores new age a base para a generalidade das canções que apresentam. Funcionam numa coordenação harmoniosa, tendo 3 “estações de teclados e pad’s” à responsabilidade de cada uma das raparigas, sendo a função vocal repartida pelo trio. “Tell Me” e “Somebody Who”, são as canções-bandeira da banda, entoadas pela plateia de tal forma que as simpáticas raparigas que em palco se apresentam, não disfarçam a surpresa e insistem em revelar a sua “paixão por Portugal”. Um concerto harmonioso, que deve ter deixado a ecoar na mente dos presentes o refrão de uma das músicas das Au Revoir Simone: “Uh, you girls, you drive me crazy”.

E se cerca de 8 horas de concertos não bastassem para alguns festivaleiros, o palco Heineken prosseguia com a festa, desta feita com dois nomes já repetentes no festival: primeiro SBTRKT, de seguida Caribou.

Hoje, vive-se o derradeiro dia do NOS Alive. The Libertines, de Carl Barât e Pete Doherty, têm a responsabilidade de fechar o palco principal. No palco Heineken, o cartaz está recheado de nomes sonantes (War on Drugs, Unknown Mortal Orchestra e Chet Faker são apenas alguns), que eu nada ajudam à elaboração do roteiro de concertos a assistir. As decisões são difíceis, e ainda bem que assim o são.




11/07/2014

O Rapaz conta como foi: NOS Alive'14 (10 de Julho)


Este artigo foi escrito no contexto da parceria com o Strobe, e como tal, podes vê-lo igualmente neste site (que é bem bonito!)

Está de volta o festival que todos os anos leva milhares e milhares de fãs de música, quer nacionais, quer internacionais ao Passeio Marítimo de Algés. Muda o nome, mantêm-se aquilo que melhor caracteriza o festival: muita variedade musical (distribuída por 5 palcos espalhados por todo o recinto). O primeiro dia de NOS Alive, completamente esgotado, não poderia ter gerado mais entusiasmo no público que marcou presença no recinto. Esperava-se essencialmente por Arctic Monkeys, mas havia antes disso mais para ver e ouvir. Muito mais.

As honras de “abertura” do palco NOS foram da responsabilidade de Ben Howard, e da sua doce e simples folk, recebido desde já por uma “pequena multidão” que se começava a acumular em frente ao palco principal (agora revestido a branco, ao invés do cor-de-laranja presente nas anteriores edições). A entrada do inglês em palco, não pareceu contudo muito promissora, marcada por algumas  falhas de som que pareceram tirar parte do entusiasmo do público presente. Dificuldades ultrapassadas, era tempo de Ben Howard prosseguir o concerto obviamente focado em “Every Kingdom” único registo longa-duração lançado pelo rapaz de Devon, que lhe valeu uma nomeação para o Mercury Prize em 2012. Temas como “Keep Your Head” e “Only Love”, mostraram ser do conhecimento geral de grande parte da assistência (maioritariamente composta por adolescentes do sexo feminino. “Ai, ele é mesmo parecido com o Ed Sheraan!”, comentava uma rapariga com o grupo de amigas). Folk com um travo a Verão a abrir o festival (no que ao palco principal diz respeito). Seguiam-se os Lumineers no palco NOS, segue a reportagem para o palco Heineken onde já se escutavam os primeiros acordes do concerto de Temples.

Estreia em Portugal do quarteto britânico, que no início do ano deu a conhecer “Sun Structures”, que aliás, foi uma das agradáveis surpresas deste primeiro semestre do ano discográfico de 2014. E foi precisamente “Sun Structures”, o tema que dá nome ao disco, a servir de mote para um concerto definido pelo característico rock psicadélico revivalista dos Temples. “Mesmerize”, “A Question Isn’t Answered” e principalmente “Keep In The Dark” foram canções religiosamente entoadas pela plateia simpática que compunha o palco Heineken (que de “secundário”, tem pouco), acontecimento que deixou o grupo liderado por James Bagshaw visivelmente impressionado, e certamente satisfeito com a calorosa recepção. E certamente satisfeitos, ficaram também os fãs da banda, que puderam assistir a uma fiel reprodução e recriação do ambiente psicadélico que se pode sentir ao escutar o disco de estreia. Excelente primeira impressão deixada pela banda britânica, nesta vinda ao nosso país.

Com semelhante objectivo de deixar igualmente uma positiva lembrança de um primeiro concerto em Portugal, entraram em palco os The 1975 apresentando desde logo o conhecido single “The City”. Com o álbum homónimo de estreia na bagagem, a banda britânica faz do seu indie pop dançável carregado de efeitos e sintetizadores a sua principal arma para impressionar os fãs que nas filas da frente levantavam cartazes com “juras de amor” ao quarteto de “Chocolate”.  Liderados pelo carismático e irreverente Matthew Healy, cujo jeito propositadamente desajeitado e curtas intervenções parecem levar à histeria os fãs da banda (Maioritariamente adolescentes do sexo feminino. Uma constante ao longo deste primeiro dia de NOS Alive). Entre as canções de sucesso como “M.O.N.E.Y”, “Robbers”, “Girls” (entoadas em uníssono pela plateia presente neste início de noite no palco Heineken), o frontman tudo fez para evitar a monotonia do espectáculo (que culminou com uma subida á bateria). Monotonia essa que por esse motivo nunca se fez sentir em termos de espectáculo, mas que em termos de sonoridade era uma constante (todos os temas parecem ser cozinhados com os mesmo ingredientes). Um concerto que certamente não terá defraudado as expectativas dos ferverosos fãs da banda, a avaliar pela reacção (sentida em decibéis) após a última canção, “Sex”, ter cessado. Os 1975, parecem ser daqueles fenómenos de popularidade em ascensão que irão dar que falar nos próximos tempos. Um pouco à semelhança do que aconteceu com a banda que em simultâneo começa a pisar o palco principal: Imagine Dragons.

Há pouco a acrescentar sobre a banda norte-americana que nos últimos tempos tem sido constante presença em todos os tops comerciais. Os Imagine Dragons, são o típico sucesso comercial que aparece de tempos em tempos, enche salas de concertos, serve de banda-sonora para anúncios, ajuda a esgotar o primeiro dia de uma festival de grandes dimensões, vende milhões de discos, mas que de conteúdo musical…tem pouco. O alinhamento, como não poderia deixar de ser focou-se essencialmente em “Night Visions”, e todos os sucessos que nele vêm incluídos. Foi por isso um concerto carcaterizado por uma “parada de hits”, onde não poderiam faltar “On Top Of The World”, “Demons” ou “Radioactive”, e onde surpreendentemente foi incluída uma estranha versão de “Song 2” dos Blur, o que veio confirmar o que se suspeitava: os Imagine Dragons não estão ali para se gabar de uma extraordinária criatividade musical, ou da elaboração de letras complexas. Estão em palco essencialmente para entreter quem os vê. O público esse, pareceu delirar e vibrar com tudo o que a banda de Dan Reynolds lhes dava, e afinal de contas é isso que importa. Fim do concerto, nota-se desde logo uma movimentação de grande parte do público para outros pontos do recinto: estavam quase a entrar em palco os Interpol.

Não eram a banda que a maior parte das pessoas que encheram o recinto queriam ver, era desde logo a nota mental a tirar do momentos que antecederam o concerto dos nova-iorquinos Interpol. “Entalados” entre Lumineers, Imagine Dragons e até mesmo Arctic Monkeys, outra coisa não seria expectável. Com a imagem de “El Pintor” como pano de fundo (literalmente), era previsível que este concerto fosse pautado com canções novas que irão constar no álbum, com lançamento marcado para o início de Setembro. A entrada da banda é feita com “Say Hello To The Angels”, “Evil” e “C’mere”, melhor não poderiam pedir os fãs do grupo de Paul Banks, que viram assim revisitados os êxitos de “Turn On The Bright Lights” e “Anticts” (considerados de forma unânime como os melhores registos do grupo). Porém, e pelos motivos explicados inicialmente, o público pareceu pouco reactivo, pouco participativo e acima de tudo desinteressado. E os Interpol pouco fizeram para “puxar” e mudar o estado de espírito destes que assim se encontravam. Não estamos perante o tipo de banda de saltos esporádicos, crowdsurfings, ou outros artifícios do género. Os Interpol fazem valer-se pelo seu Rock sólido e coeso, mantendo sempre a atitude sóbria que sempre os caracterizou. E assim foi, ao longo de todo o alinhamento que apresentou “Anywhere” e “All the Rage Back Home” como canções novas, e celebrou os êxitos de sempre como “NYC”, “PDA” ou “Obstacle 1”. “Entediante”, dirá a maior parte que esteve presente para marcar lugar para o concerto que se seguia. “Um concerto competente, e extremamente satisfatório” pensarão os fãs de Interpol.

Tempo agora para o concerto mais esperado e ansiado de todo este primeiro dia que trouxe cerca de 50 mil pessoas ao Passeio Marítimo de Algés: Arctic Monkeys. Kelis, cantava o famoso verso “My milkshake brings all the boys to the yard” no palco Heineken, mas como seria de esperar, foi o “quintal” dos Arctic Monkeys que atraíu quase a totalidade dos festivaleiros (a piada tinha de ser feita). Com a capa de AM como fundo de palco, os rapazes de Sheffield sobem ao palco NOS para a total histeria da plateia. “Do I Wanna Know?” abriu as hostilidades, e estava dado o pontapé de saída para cerca de 1h30 de canções de sucesso atrás de canções de sucesso. É inegável a evolução da banda desde o primeiro disco até este AM, as mudanças são por demais óbvias. Os Arctic Monkeys já não são aquela banda tímida, caracterizada pela irreverência talvez adolescente que demonstravam nas músicas que os acompanharam no início de carreira. Já não são os meninos com visual casual e despreocupado (as preocupações essas, pendiam-se exclusivamente com o rock n’ roll de ritmo frenético), despenteados, e com guitarras puxadas quase até ao peito. Temos perante nós uns Arctic Monkeys maduros, liderados por Alex Turner (uma espécie de Alex and The Monkeys) de brilhantina no cabelo, dos movimentos pélvicos e do “piscar de olho” à rapariga da fila da frente que exibe um cartaz a dizer “Alex, I Wanna Be Yours”. Quem os viu e quem os vê. O alinhamento, composto em grande parte por temas do disco mais recente que trouxe uma outra visibilidade, e um novo público (claramente mais jovem) aos britânicos, passou por canções como “Arabella”, “Snap Out Of It”, “Knee Socks” ou “Why’d You Only Call Me When You’re Why” mas também, e para gáudio dos fãs dos discos mais antigos, por “Dancing Shoes”, “Fluorescent Adolescent”, “505” (que terminou a 1ª parte do concerto) e claro “I Bet You Look Good On The Dancefloor” tocadas agora com a renovada atitude que tem vindo a tomar conta da banda, parecem ter tirado um certo “sabor” às antigas canções. O já habitual encore, trouxe ainda “One for the Road”, a balada “I Wanna Be Yours” e a explosiva “R U Mine?”, deixando em êxtase os fãs que desde cedo marcaram lugar para ver de perto o tão esperado concerto. Os Arctic Monkeys fizeram o suficiente (e sublinhe-se “suficiente”) para serem coroados como os reis da noite, algo que só não aconteceria (tendo em conta a expectativa que se criou em torno do concerto) se por algum motivo a banda não aparecesse em palco.

A primeira noite de NOS Alive, tinha marcada para o fim a actuação de Jamie XX. O membro da banda The XX, que teve a seu cargo a curadoria deste primeiro dia do palco Clubbing (que trouxe nomes como Daphni e Pearson Sound), fez da sua electrónica o “remate final” da noite, onde os mais resistentes ainda se mantinham enérgicos na pista de dança.

Hoje, há The Black Keys como cabeça-de-cartaz. Mas, tal como ontem, muito mais para ver e ouvir. Muito mais. 



02/05/2014

O Rapaz conta como foi: PAUS, no Lux (Concerto de Apresentação - "Clarão")


Este artigo foi escrito no contexto da parceria com o Strobe, e como tal, podes vê-lo igualmente neste site (que é bem bonito!)

Foi uma simpática moldura humana que preencheu o piso inferior do Lux, para receber os PAUS e o seu recém-nascido “Clarão”. O quarteto lisboeta (que se deu a conhecer em 2010 com o EP “É Uma Água”), reservou a noite de quarta-feira para apresentar o seu novo trabalho, que vem assim prolongar a marca deixada pelo álbum homónimo: a peculiaridade sonora da banda, trazida pela sua também pouco ortodoxa formação, que posicionou o projecto como um dos mais interessantes que por cá têm aparecido.

A famigerada bateria siamesa dos PAUS, hepicentro de toda a energia característica da banda, era já o centro de toda a curiosidade mesmo antes da dupla Joaquim Albergaria e Hélio Morais se apresentarem em palco para fazerem vibrar cada peça pertencente ao curioso instrumento musical. Situação perfeitamente justificável, e quase sempre recorrente quando nos encontramos num concerto da banda, afinal é este um dos elementos que mais identifica e diferencia a sonoridade da banda.

O quarteto entra em palco, Albergaria e Hélio sentam-se frente a frente preparando-se para um concerto onde “energia” e “destreza” são palavras de ordem, enquanto Fábio Jevelim e Makoto Yagyu se encarregam dos teclados e instrumentos de cordas que aliam a melodia ao frénetico ritmo. “Primeira”, é (e nem o nome engana) a primeira canção que se escuta nesta noite e comprova desde logo essa perfeita simbiose que culmina num preenchido e corpulento som vindo do palco, muito por culpa dos teclados “espaciais” que agora circundam as incansáveis linhas rítmicas. Seguem-se “Cume” e “Clarão”, duas das canções mais entusiasmantes do disco novo da banda, que curiosamente não parecem ser recebidas com grande entusiasmo pela plateia. A timidez inicial ainda não se tinha perdido, e talvez percebendo isso, Hélio dirige as primeiras palavras a quem preenchia a sala: “Eu sei que lançámos o álbum há pouco tempo, e ainda não houve tempo para decorar as letras. Mas o ritmo é universal, ou não?”. Estava dado o mote para uma bonita festa, como seria inicialmente desejado.

“P’ra trás! P’ra trás!” gritava-se agora em palco, não querendo contrariar a tendência de um público que se mostrava agora mais disposto a receber com entusiasmo os estímulos sonoros, mas sim cantando “Pontimola”. “Ouve só” (tema que abre o álbum anterior, de 2011), antecede o single “Bandeira Branca”, agora sim recebido num clima de êxtase,  com ritmos contagiantes remetendo para um ambiente mais tribal.

A perfeita sintonia entre as duas metades da já referida bateria siamesa é verdadeiramente impressionante, e se já é entusiasmante escutar esse fenómeno, conseguir aliar a experiência visual transcende todas as expectativas. A capacidade quase minuciosa de coordenação, permite aos PAUS partir de períodos de calma à antagónica balbúrdia sonora, da ordem ao perfeito caos. A sonoridade camaleónica (dentro do estilo com o qual se comprometem), traz-nos desde a dançável “Cauda Turca”, à misteriosa “Negro” e à esquizofrenia de “Nó”.

Duas das mais aguardadas músicas da banda são tocadas de rajada, “Muito Mais Gente” e “Deixa-me Ser”, canções que ajudaram a construir o reconhecimento que hoje a banda Lisboa mantém dentro e fora do país, e cuja prova residiu no afinco com que o público se prontificou a desfrutar e entoar as letras em uníssono. “Estas são as últimas”, avisa Hélio Morais antes de atirar a “Corta Vazas” e “Pelo Pulso” (tema do primeiro EP do quarteto).

Mas tal como a letra de “Muito Mais Gente” declara, “O fim é um princípio qualquer”, e desta feita o fim anunciado por Hélio, rapidamente se transformou no princípio do habitual encore,  ameaçado por uma falha técnica de pronto solucionada com o bom humor que os PAUS sempre demonstram. O concerto não veria o seu fim, sem que antes Makoto se aventurasse num original crowdwalking. O público outrora pouco mais do que estático, termina a aplaudir o quarteto num clima de apoteose. Quando música contagia, não há inércia que resista. E assim se deu por terminada a noite em que o “Clarão” iluminou Lisboa pela primeira vez. Segue-se agora o Porto. 






08/04/2014

O Rapaz conta como foi: Capicua no Musicbox (Concerto de apresentação - "Sereia Louca")


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“O preço de uma pessoa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessoas. As palavras dançam nos olhos das pessoas conforme o palco dos olhos de cada um.”. São estas a palavras iniciais do disco homónimo de Capicua, a rapper oriunda da Cedofeita. Agora com disco novo, “Sereia Louca”, que apresentou perante um Musicbox completamente lotado, as palavras inicialmente descritas são igualmente (e talvez reforçadas) aplicáveis: Ana Matos, que no mundo do rap se torna Capicua, tem como arma as palavras que usa como ninguém, perfigurando-se como uma das letristas/poetisas mais talentosas dos nossos tempos.
A plateia que se vê no Musicbox demonstra desde logo a capacidade que o rap de Capicua tem para agradar às massas, coisa que dentro deste estilo nunca se afigura fácil. O rap emocional, biográfico e sem se colar directamente a estereótipos e ideias pré-concebidas, conquista e agrega público desde os acérrimos fãs de hip-hop, aos restantes que talvez nunca se imaginariam num espectáculo deste estilo musical. Se há artistas transversais, Capicua é o perfeito exemplo. E “Sereia Louca”, vem cimentar essa posição de destaque.
O concerto inicia-se com o vídeo explicativo do conceito e do nome do disco, nascido num sonho e transformado em “Sereia Louca” pela mente incrivelmente criativa de Capicua. Apresenta-se então em palco a rapper, fazendo-se acompanhar da fiel voz de suporte M7, e do talentoso D-One na importantíssima base instrumental. É mesmo o single do álbum, que arranca uma noite que o público e a artista nunca iriam deixar que fosse algo menos que memorável. “Sereia Louca”, tema que nos fala da vontade de querer mudar quem somos e da coragem para o concretizar, tem em muito de si o poder que rapper incute no seu trabalho, e na emoção com que se dedica àquilo que tão bem faz. “Lenga”, cantada acapella, revela uma vez mais a incrível faceta de Capicua: mais do que uma simples rapper, é uma poetisa dos tempos modernos que utiliza o hip-hop para fazer chegar os seus pensamentos a todos que se dispõem ouvi-la. Seguiram-se “Alfazema”, “Líquida” (Se o disco nos fala sobre as míticas sereias, não poderiam faltar referências ao seu natural habitat) e a incrível faixa “Lupa” que em disco conta com a colaboração de Aline Frazão. Capicua demonstra a cada música, a cada palavra, a enorme entrega á sua música, fazendo-nos ter a certeza que nada do que se passa ali é por acaso (inclusive a parte visual, que ficava a cargo de Dário, e dos seus rabiscos que se projectavam em palco). O sentimento que transmite e transparece a cada verso que solta, reflectem-se imediatamente no público que ferverosamente a acompanha a cada música.

Fotografia por: Diogo Cruz
Tempo agora para Capicua apresentar a “cauda” da sua “Sereia Louca”, como habitualmente se costuma referir às versões acústicas de temas de trabalhos anteriores presentes no disco. Sobe então ao palco Mistah Isaac, exímio no beatbox e na guitarra, para dar corpo a “Vinho Velho”, “Luas” e “Casa no Campo” (uma das mais aguardadas da noite).
Mas se pensam que os temas da rapper apenas respiram de temas agradáveis de explorar, Capicua rapidamente nos desengana: “Isto até agora foi tudo muito cor-de-rosa, mas a vida nem sempre é assim”. E desta forma chega-nos “A Mulher do Cacilheiro” , canção sentimental que retrata a realidade de muitas mulheres. Dentro do mesmo registo, junta-se agora ao espectáculo Gisela João (curiosamente outro perfeito exemplo de uma artista que veio refescar o estilo onde se insere, sem o desvirtuar das raízes), cujo assombroso poder vocal eleva a saudosista “Soldadinho” para um outro nível emocional. Já sem a fadista como companhia, chega “Jugular” e “Medo do Medo”, canções com conotação política e de reacção social muito ao estilo da intervenção de artistas que enfatiza em “Vayorken” (uma alegre de biografia da sua infância): Zeca Afonso e Sérgio Godinho.
E como uma festa de celebração de disco novo, não pode deixar de incluir sucessos do passado, Capicua faz-nos reviver as suas colaborações e trabalhos  mais antigos (“Capicua Goes Preemo” ,de 2008, e “Capicua”, o LP de 2012) através de músicas como “Lingerie” ,“Maria Capaz” e “Tabu”.
O concerto aproximava-se do fim, mas era ainda tempo para “Vayorken” e “Mão Pesada”, a faixa que personifica a atitude poderosa e maneira de ser da rapper portuense: “mulher do norte, forte, ar de respeito”, que “agarra, não abraça”.
Teria sido mesmo este o final da noite, não tivesse Capicua voltado ao palco para protagonizar um pouco habitual encore. “Eu não gosto muito destas coisas, mas hoje tem de ser”, confessa Ana Matos antes de cantar “Pedras da Calçada”, da sua segunda mixtape “Capicua Goes West”.
Chega ao fim a noite que deixou ainda mais vincado o cada vez mais evidente reconhecimento que Capicua tem junto do público português. A transparência das letras, a entrega e simplicidade com que se dá ao que interpreta, catapultam-na para um lugar de destaque não só no hip-hop, como no panorama musical em geral. “Há tantas estrelas, e eu brilho sem esforço”, como exclama em “Luas”, pode parecer egocentrismo e apenas mais um verso deste género no mundo do rap, mas não…não poderia ser mais verdadeiro. A isto chama-se dom.

16/02/2014

O Rapaz conta como foi: Linda Martini, no Lux (Convidada especial: Gisela João)


Este artigo foi escrito no contexto da parceria com o Strobe, e como tal, podes vê-lo igualmente neste site (que é bem bonito!)

Jornada dupla de concertos no Lux, ambos completamente esgotados. Assim se mede, observando os frequentes fenómenos de afluência, o cada vez maior e mais evidente reconhecimento e consequente importância que os Linda Martini já conquistaram no panorama musical português. De concerto a concerto, sala esgotada em sala esgotada, a banda portuguesa vai-se agigantando e caminhando a passos largos (se é que ainda não chegou lá) para um estatuto de banda de culto da história da música nacional.
A moldura humana que preenchia o piso inferior do Lux, aguardava expectante e ansiosa o início de um concerto que sabia antecipadamente e com toda a certeza que não iria decepcionar.  É assim que os Linda Martini têm habituado quem os acompanha, e por esse motivo só um inexplicável cataclismo não permitiria que este concerto assim o fosse, um sucesso.
O começo dá-se com “Queluz Menos Luz”, um instrumental presente em “Casa Ocupada”, que representa na perfeição aquilo que transmite o som e essência dos Linda Martini: a poesia muda em forma de post-rock, e o perfeito balanço entre a melodia e agressividade que arrepia e acolhe quem ouve. O mote está dado, público conquistado à primeira canção, e a partir daqui só podia melhorar.  Com “Sapatos Bravos” e “Ratos” canções vindas de “Turbo Lento”(um dos melhores álbuns lançado no ano transacto), as vozes do público fazem-se ouvir em uníssono e autêntica comunhão,  reflectida em tímidos sorrisos dos elementos da banda, já habituados mas sempre incrédulos pela frenética reacção de quem se apresenta em frente do palco. O ambiente intenso e arrebatador já se fazia sentir na plateia, e em palco os músicos insistiam e davam tudo por tudo para impedir que este sentimento se desvanecesse. “Febril” chega como perfeita banda-sonora para personificar o que se sentia naquele momento: “Tenho o sangue a ferver!”, são os gritos de ordem (soltos mais uma vez por todos o que presenciavam) de uma música que se escuta e vive de corpo desperto e dentes cerrados, como  “Belarmino” que os Linda Martini descrevem e exultam na canção que também figurava na setlist da noite.
A chegada de “Partir Para Ficar”, traz consigo o silêncio arrepiante resultante da letra interpretada de forma intensa, que ecoa nas paredes da sala.  A angústia,  o desespero, é esta a mistura de sentimentos inóspitos que os Linda Martini tão bem exploram em variadas canções (Como “Volta” e até “Panteão”, que se seguiram), mas fazem-nos especialmente nesta que tão bem embala e acompanha a letra adaptada do histórico poema de José Mário Branco. Os sentimentos do ser humano podem ser absolutamente inexplicáveis, mas os Linda Martini conseguem interpretá-los, replicá-los nos seus intrumentos… e fazer-nos senti-los de novo.
Perfeito exemplo disso mesmo foi o momento que se seguiu, talvez o mais aguardado da noite. Gisela João sobe ao palco, para dar voz a algumas músicas tocadas pelos Linda Martini. “Hoje é dia dos namorados, e eu tenho de dizer isto: Estou apaixonada por esta banda”, confessa a fadista o que um indisfarçável sorriso já denunciara. “As Putas Dançam Slows”, é a primeira música resultante desta parceria que há muito já se aguardava. As comparações entre a sonoridade saudosista, sentimentalista e intensa dos Linda Martini com o Fado, já lhes tinham valido designações como “Novo Fado”, fazendo deste momento com uma fadista a concretização e confirmação desse mesmo desejo. E de facto, a escolha não poderia te recaído em ninguém mais apropriado do que Gisela João:  fadista dos tempos modernos, desliga-se das habituais aparências, estéticas e “clichés” visuais do fado, e apresenta uma jovial “lufada de ar fresco”, sem desvirtuar em nada o estilo musical que é tão querido e característico da alma portuguesa. Gisela João entrega-se totalmente ao que de facto interessa: a intensidade, sentimento  e poder vocal como há muito não se ouvia na nossa música. É assim que se apresenta no seu fado, foi assim que deslumbrou tudo e todos como temporária vocalista do post-rock dos Linda Martini durante “Pirâmica” e “A Corda Do Elefante Sem Corda”, com coragem suficiente para se lançar num “rockeiro” stage diving.  A despedida da fadista fez-se com “Adeus Que Me Vou Embora”, uma belíssima versão do tema de António Variações que fechou de forma perfeita um momento em que se fez história. A representação de um namoro musical perfeito, em pleno dia de S.Valentim.
“O encore é aquele momento em que as bandas enganam o público. Nós ficamos aqui”, diz o baterista Hélio Morais antes de se lançar de forma animalesca a “Amor Combate” e “Cem Metros Sereia”, a canção que causa apoteose,  euforia e rouquidão muito por culpa da icónica frase “Foder é perto de te amar, se eu não ficar perto”, repetida vezes e vezes sem conta. Esta seria a despedida, não tivessem os Linda Martini acedido simpaticamente aos pedidos de “só mais uma” por parte do público ao tocar “Dá-me a tua melhor Faca”, para júbilo de todos os presentes.
As expectativas do público certamente não saíram defraudadas após esta noite verdadeiramente épica (como já inicialmente se desconfiava), marcada ainda pela brilhante e histórica participação de Gisela João. Irrepetível? Todos desejamos que não.

10/02/2014

O Rapaz fala de: "Pesar o Sol" (Capitão Fausto - Concerto de Apresentação no Lux)




Os lisboetas Capitão Fausto, são indubitavelmente um dos valores cada vez mais seguros desta nova vaga de talento musical com selo de qualidade lusitano. Passados mais de 2 anos do lançamento de “Gazela” (o álbum de estreia a transbordar hiperactividade e refrões que demoram a sair da mente) o quintento acaba de lançar “Pesar o Sol”, um disco embebido num ambiente psicadélico propício a longas viagens mentais, sem necessidade de recorrer a qualquer tipo de substâncias psicotrópicas! É precisamente sobre este último trabalho dos Capitão Fausto que agora te vou falar. Do álbum, e do concerto de apresentação que aconteceu no Lux, no passado dia 6. Sim, por isto vai ser um texto 2 em 1, este blog transpira inovação! Ou então foi só uma fiável maneira de avaliar o verdadeiro poder que este “Pesar o Sol” efectivamente tem. Há melhor forma de o “sentir” do que ouvi-lo na íntegra ao vivo? Também achei que não.

  Ao observar os títulos deste dois primeiros discos saídos da mente dos Capitão Fausto, há algo que para mim se torna por demais evidente:  estes rapazes são exímios no que à representação do conteúdo do trabalho no seu próprio nome diz respeito. “Gazela”, demonstra na perfeição tudo aquilo que constítui as faixas presentes no álbum: a frenética velocidade (comparável à desse tal quadrúpede),  a contagiante energia presente nos riffs da musicalidade pop-rock apresentada pela banda, fundidas numa alegre festa rock de letras tão apetecíveis como bem pensadas. E agora “Pesar do Sol”, promete-nos desde logo a impossibilidade, a magia e o mistério de nos aventurarmos por um mundo incerto, dúbio e de certa forma abstracto, premissas tão próprias de um clima psicadélico que os Capitão Fausto exploram neste disco..e que bem que o fazem. Este facto pode parecer de certo modo insignificante, mas revela desde logo uma apurada sensibilidade da banda para envolver os seus trabalhos num conceito próprio, muito para além de uma simples apresentação de um conjunto de músicas. Foi uma belíssima mistura destes dois universos (“Pesar o Sol” e uma pitada de “Gazela”) que a simpática moldura humana que encheu o piso de baixo do Lux teve oportunidade de presenciar.

  Pouco passava das 23 horas quando se escutaram os primeiros acordes de um concerto do qual se esperava muito (e muito esperaram à entrada, os fãs da banda). “Litoral”, é o ponto de partida para a apresentação de “Pesar o Sol”  feita na íntegra, permitindo desta forma uma perfeita experiência quer visual quer sonora de tudo aquilo que os Capitão Fausto imaginaram para este trabalho. Instrumentos carregados de efeitos, unidos por acordes arrastados de sintetizador, oferecem ao vivo um resultado brilhante e bastante fiel ao que se pode escutar no disco. “Pesar o Sol”, assim como acontecia em “Gazela”, é feito de festa e animação (parece ser esta a afirmada identidade dos Capitão Fausto), mas desta feita resultante de uma panóplia de sons a descobrir e de musicalidade bastante mais preenchida, ao invés da explosão imediata que acontecia no seu antecessor. São perfeito exemplo disto “Nunca Faço Nem Metade” (espécie de hino da preguiça e procrastinação), “Prefiro que não Concordem”  e “Ideias”, canções que se aproximam de “Gazela”, mas com o tal cunho psicadélico e mais amadurecido que a banda incute no álbum (a adega na qual foi gravado “Pesar o Sol”, não podia ser cenário mais perfeito para personificar esse amadurecimento).As comparações com Tame Impala, são tão evidentes (a fantástica “Tui” é ideal amostra disso) como redutoras quando se resume apenas a isto, a descrição do brilhante processo criativo da banda. “Pesar o Sol” é muito mas muito mais que uma mera tentativa de cópia de assumidas referências musicais da banda (que passam por Pink Floyd e The Doors, é audível). É a evolução e engradecimento de uma banda que teima em revelar um enorme talento musical. Podiam por esse facto, ter enverdado por vários estilos...deu-lhes para o psicadelismo, só temos de agradecer (por mim falo, que tanto aprecio essa vertente da música rock).

  Foi por entre estas canções que a noite foi avançando, passando por solos prolongados (tocados frequentemente por Tomás Wallestein em pleno crowdsurfing, coisa que abundou durante o concerto). A chegada do single “A Célebre Batalha de Formariz” desperta o sing-a-long no Lux, mostrando a cada vez maior legião de fãs da banda, e desperta também uma “saudável batalha” feita de saltos e os habituais “empurrões” nas filas dianteiras, tudo absolutamente contido nos limites da diversão. A sequência “Flores do Mal” e “Pesar o Sol” (o instrumental que dá nome ao disco), permitem uma breve e calma viagem mental propícia ao “descanso” de toda a azáfama sonora que tinha sido uma constante até então. Descanso esse, bruscamente interrompido por “Febre”, a canção “Ska/Rock” que figurava em “Gazela” (que assim como “Verdade”, “Santa Ana” e “Sobremesa” marcaram presença nesta noite), pois num concerto dos Capitão Fausto raramente há lugar para tempos-mortos, isso já é sabido.

  “Maneiras Más”, segundo single do álbum é a música que fecha o concerto para o já habitual encore, fazendo-o com um largo períodio instrumental onde os teclados de Francisco Ferreira foram heróis, fazendo lembrar os largos e inesquecíveis solos de Ray Manzarek, projectando quem escutava para o espaço sideral.

  “Lameira”, canção que fecha o álbum, desempenha o mesmo papel neste concerto de apresentação. “Quando o país rebentar, eu vou cá estar para ver, o país rebentar” afirma o frontman (cada vez mais e melhor frontman, há que dizer), acompanhado por um riff quase 8-bit. A noite termina como começou: um som coeso carregado de efeitos, capazes que pôr em órbita qualquer ser que o escute.


  De entre todos os acontecimentos de “Pesar o Sol”, há um verso dito em “Tui” que marca, e podia perfeitamente figurar na capa do disco ou em outros elementos promocionais como sendo slogan/assinatura daquilo que o disco promete e indiscutivelmente cumpre: “P’ra viajar basta existir”. E que viagem é ouvir este “Pesar o Sol”!


01/12/2013

O Rapaz conta como foi: Vodafone Mexefest 2013 (30 de Novembro)


Este artigo foi escrito no contexto da parceria com o Strobe, e como tal, podes vê-lo igualmente neste site.

Depois de terem sido dadas algumas horas de descanso à cidade, eis que chega a 2ª e última noite do Vodafone Mexefest, e com ela regressam os festivaleiros sedentos por aproveitar da melhor forma cada segundo da música que se respira neste sobe e desce da Avenida da Liberdade.  O dilema (ou desafio), esse, é o mesmo da noite transacta:  que concertos escolher, de entres todos estes espalhados por 13 palcos diferentes? A resposta a esta pergunta variava de indivíduo para indivíduo, e espelhava-se na alegre azáfama vivida na capital portuguesa.

  E se para mim a noite anterior teve início a meio da Avenida da Liberdade, (no Cinema São Jorge, ao som dos JUBA) o caminho desta 2ª ronda do Vodafone Mefest inicia-se largos metros abaixo, mas com a mesma missão de satisfazer a curiosidade de ver umas das bandas desta nova vaga de talento musical que felizmente tem despontado no nosso país, desta feita os Ciclo Preparatório. Donos de um pop-rock revivalista, que relembra o mesmo estilo dos anos 80 portugueses, os Ciclo Preparatório traziam na bagagem o seu disco de estreia “As Viúvas não temem a Morte” e prometiam fazer vibrar a estrutura da Casa do Alentejo (talvez dos espaços mais belos presentes na lista do festival). Músicas sólidas, de ritmo certinho e letras cativantes, que parecem já ser do conhecimento geral do público presente ( “Lena del Rey” e “ A Volta ao Mundo com a Lena d’Água” foram exemplos disso) foram mote para um início de noite de festa, à qual entretanto se juntou a participação especial de Manuel Fúria. E pegando nas palavras usadas pelo antigo vocalista d’ Os Golpes para descrever a banda que o convidou: “ Ciclo Preparatório, uma banda com muita pinta”.

  Este início de serão, pródigo em espectáculos de emergentes talentos da música nacional, apresentava em simultâneo e a escassos metros do concerto dos Ciclo preparatório, Gisela João. A fadista, um dos nomes mais entusiasmantes desta nova geração de intérpretes, provocou uma verdadeira enchente na Sociedade de Geografia de Lisboa que teve certamente como “isco” o seu assombroso poder vocal e apaixonante forma como se entrega ao que canta.

  A curta distância, começava um dos mais aguardados concertos desta segunda ronda do festival: Daugther, o projecto inicialmente idealizado a solo por Elena Tonra, que é agora acompanhada Igor Haefeli (guitarra) e Remi Aguilella (bateria), fazia a sua estreia em solo nacional. O Coliseu dos Recreios encheu para ouvir (e sentir, porque é mesmo para isso que puxa a sonoridade de Daughter) o indie rock melancólico e sentimental que caracteriza a banda, e o público não poderia ter proporcionado melhor surpresa ao trio que nunca havia visitado o nosso país. Demonstrando um total conhecimento do trabalho desenvolvido pela banda (desde os primeiros EP’s “His Young Heart” e “The Wild Youth", até ao mais recente e aclamado “If You Leave”), o público presente cantou, vibrou e aplaudiu temas como “Youth” e “Smother”, deixando os músicos, que em palco se apresentavam, surpresos e repletos de alegria (deixada transparecer por Elena, em tímidos risos entre músicas). Depois deste bem sucedido teste de popularidade, o público português anseia certamente por mais uma visita durante os tempos (e outros festivais até, quem sabe) que se avizinham.

  Primeira subida pela Avenida da Liberdade, tendo como destino o Cinema São Jorge e o espectáculo de Erlend Øye, o norueguês que encarna metade dos Kings of Convenience, mas que que ontem na Sala Manuel de Oliveira se apresentava a solo. Figura alta e franzina, entra em palco apenas munido da sua guitarra, e sem medo de dominar e captar totalmente a atenção de uma bem preenchida plateia. Desde logo revela boa disposição e uma alegria contagiante, que num ápice se transformam num sentimento de enorme simpatia que o público passava agora a nutrir pelo afável Erlend Øye. “Fico contente por estarem disponíveis para me ouvir, é que eu também só quero tocar”, explica o norueguês (numa das muitas agradáveis conversas com o público) num tom de quem interpreta e toca música com a simplicidade e beleza que esta merece. Ao longo do concerto juntam-se a Erlend, um instrumentista de sopro e um guitarrista italiano (que impressiona ao interpretar, a solo, a sua versão de “Tarde em Itapuã” num perfeito português do Brasil), que contribuem e muito para uma maior “corpulência” de temas como “La Prima Estate” que puseram a plateia do São Jorge de pé e a dançar. Uma festa primaveril que certamente deixou quem assistiu, de sorriso estampado no rosto.

  A sala Manuel de Oliveira parecia nessa noite talhada para receber artistas que repletos de coragem se apresentam a solo para enfrentar uma vasta plateia, sendo que The Legendary Tigerman era quem se seguia no seu tão bem conhecido estilo de “One Man Band”. O blues rock de elevada intensidade e qualidade, tal como nos tem habituado Paulo Furtado, aumentava a pulsação de quem escutava. Numa tentativa de impulsionar o concerto para um patamar ainda mais intimista, Legendary Tigerman convida os fãs a levantaram-se e colocarem-se em palco (acontecimento que, por motivos de segurança, não tardou em ter o seu fim). Mas nem esse rapidamente refutado pedido, abrandou o músico português na sua demanda de proporcionar um espetáculo memorável a quem esgotava a sala do São Jorge. Apresentando setlist que combinou êxitos do passado, com músicas novas (uma delas acompanhada por Rita Redshoes) e versões de clássicos que inspiram a carreira deste brilhante intérprete, Legendary Tigerman tocou, cantou, gritou e finalizou a sua finalizou actuação com um passeio no meio da plateia da Sala Manuel de Oliveira. Certamente um dos concertos que marcam este edição do Vodafone Mexefest. E a quem melhor poderia assentar a expressão “animal de palco” do que ao nosso Homem-Tigre?

  Enquanto as almas mais afectas ao blues de Legendary Tigerman, deliravam com o estrondoso concerto que estava a acontecer no São Jorge, outras certamente mais dadas à pop experimental e aos ritmos dançáveis de Oh Land fizeram parecer minúsculo o espaço da Estação do Rossio onde se encontrava o palco. Dois fantásticos espectáculos de estilos distintos a acontecer em simultâneo, é a definição no seu expoente máximo do que é este dinâmico evento.

  O festival despediu-se este ano com o Picnic Live trazido pela editora D.I.S.C.O Texas, uma festa electrónica que transformou o Coliseu dos Recreios num gigante clube de dança, e acompanhou até à última os últimos resistentes. Depois de duas noites a mexer com Lisboa, o Vodafone Mexefest assinala-se de novo como um evento de sucesso, e promete certamente regressar para o próximo ano.